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O brasileiro ainda compra carro usado "no escuro"?

03/10/2026 - 15:45 - Redação
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*Por Tiago Sarlo

Comprar um carro usado é, para a maioria dos brasileiros, uma decisão que envolve uma quantia significativa de dinheiro. Ainda assim, não é raro que a análise do veículo termine naquilo que os olhos conseguem enxergar: quilometragem, estado da lataria, conservação dos bancos, funcionamento do motor e, principalmente, o preço.

E essa cena se repete em escala gigantesca: foram mais de 18,5 milhões de veículos usados vendidos em 2025, recorde histórico segundo a Fenauto, e mais de 9 milhões só no primeiro semestre de 2026. A maior parte dessas decisões ainda é tomada com base no que os olhos alcançam.

O problema é que um carro pode parecer perfeito e ainda carregar um histórico que muda completamente o valor (e o risco) daquela compra. Ele pode, por exemplo, ter passado por um leilão, ter sofrido um sinistro relevante ou até mesmo possuir restrições administrativas, judiciais ou financeiras. Ou seja, pode ter registros que não aparecem em uma simples avaliação visual.

Em outras palavras: o consumidor pode conhecer muito bem o carro que está vendo, mas saber muito pouco sobre o carro que está comprando. É o que significa, hoje, comprar "no escuro". O ponto focal que acredito que precise de atenção é que a informação existe, mas ainda não virou hábito, mesmo sabendo que a tecnologia já tornou possível acessar uma quantidade muito maior de informações sobre um veículo antes da compra.

A própria Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) mantém bases que permitem consultar dados e indicadores relacionados aos veículos. O Renavam, por exemplo, tem como uma de suas principais funções armazenar os dados dos veículos que circulam no país e, segundo o Ministério dos Transportes, armazena todo o histórico do veículo.

Também é possível consultar indicadores como restrições administrativas, judiciais e financeiras, além de informações relacionadas a roubo e furto, recall, multas e comunicação de venda.

Ou seja, o problema já não é simplesmente a ausência de informação. O desafio é transformar informação disponível em comportamento de compra, pois ainda existe uma cultura de acreditar que uma boa avaliação mecânica, uma conversa convincente com o vendedor e uma volta no quarteirão são suficientes para validar um carro usado.

São etapas importantes, é claro, mas respondem a uma pergunta diferente: "Como está este carro hoje?". Já uma consulta de histórico responde a outra: "O que aconteceu com este carro antes de chegar até mim?"

E as duas perguntas são igualmente importantes.

Vou dar um exemplo. Imagine dois veículos visualmente semelhantes, do mesmo ano, modelo e versão, com quilometragens parecidas e preços próximos. Em um deles, não existem ocorrências relevantes no histórico. No outro, há registros de sinistro, passagem por leilão ou outros eventos que podem afetar sua valorização, liquidez e percepção de risco. Para quem olha apenas para o carro, eles podem parecer equivalentes, já para quem conhece o histórico, não são.

Esse é um dos pontos mais importantes para amadurecer o mercado de seminovos e usados: o preço não deveria ser analisado isoladamente da procedência, pois um veículo que passou por determinadas ocorrências pode continuar circulando e, dependendo do caso, estar perfeitamente apto a rodar. O ponto não é demonizar qualquer registro de histórico, é o consumidor saber que ele existe antes de fechar negócio.

Sempre destaco que a informação permite fazer uma escolha consciente: comprar, negociar um desconto, pedir uma avaliação mais detalhada ou simplesmente procurar outra oportunidade. Sem informação, a decisão deixa de ser escolha e passa a ser aposta.

E será que você já se perguntou quanto custa não saber? Essa é uma pergunta difícil de responder com um único número, porque o prejuízo varia enormemente de acordo com o problema encontrado. Em alguns casos, pode significar apenas descobrir que o veículo vale menos na revenda do que o comprador imaginava. Em outros, pode representar gastos inesperados com manutenção ou reparos. E, nos casos mais graves, a falta de informação pode estar associada a problemas que comprometem a própria negociação, como restrições que dificultam a transferência do veículo.

O custo também pode aparecer muito tempo depois da compra. É justamente por isso que o conceito de custo total de propriedade precisa ganhar espaço na decisão de compra. O consumidor não deveria olhar apenas para quanto vai pagar hoje, mas também para quanto aquele veículo pode custar amanhã em manutenção, desvalorização, seguro, revenda e eventuais problemas decorrentes de seu histórico.

Nesse contexto, pagar pouco por um carro sem conhecer sua procedência pode ser uma falsa economia.

O ponto positivo é que o comportamento do consumidor já mudou em outras frentes: antes de comprar um produto, pesquisamos avaliações, preços, reclamações e especificações. Quando o produto custa dezenas de milhares de reais, porém, muitas vezes ainda aceitamos uma decisão baseada em uma visita presencial e na palavra de quem está vendendo. É uma contradição em um mercado cada vez mais digital.

A própria evolução das fraudes mostra por que essa mudança de comportamento é necessária. Segundo a Serasa Experian, 51% dos brasileiros afirmaram ter sido vítimas de fraude no último ano, e 54,2% dessas pessoas tiveram perdas financeiras. E o setor automotivo tem seus próprios números: uma pesquisa da OLX apontou R$ 2,7 bilhões de prejuízo com golpes na compra e venda de veículos em um único ano, com mais de 91 mil vítimas e, no comércio eletrônico, cada fraude da categoria automotiva custou em média R$ 1.182 em 2025, segundo a Serasa Experian. Quanto mais digital é a jornada de compra, maior precisa ser a capacidade do consumidor de validar aquilo que está recebendo como informação.

Outro ponto importante é que a verificação do histórico não deve ser encarada como uma burocracia antes da assinatura do contrato. Ela, na verdade, precisa fazer parte da própria tomada de decisão e antes de comprar um usado, o consumidor deveria investigar, no mínimo:

histórico de leilão;
registros de sinistros e ocorrências, quando disponíveis;
restrições administrativas, judiciais e financeiras;
roubo ou furto;
recalls;
multas e pendências;
comunicação de venda.

Informações que possam ajudar a entender a trajetória daquele veículo.

Aqui ressalto que existe uma diferença entre ter acesso a dados e conseguir transformá-los em uma decisão e já existem no mercado plataformas que ajudam a simplificar a informação para o consumidor, pois nem todo comprador entende o significado de cada registro e nem todo mundo sabe quais sinais merecem atenção ou quais informações precisam ser confrontadas. Por isso, democratizar o acesso à informação também significa tornar essa informação compreensível.

Por fim, antes de comprar um veículo, é preciso conhecer o carro que NÃO aparece na foto: o seu histórico. Porque, no fim, o barato pode sair caro não apenas quando o veículo apresenta um problema depois da compra, mas também porque o consumidor não sabia exatamente o que estava comprando.

E, em um mercado cada vez mais digital, essa é uma das principais mudanças de comportamento que precisamos estimular: deixar de comprar carros apenas com os olhos e começar a comprá-los também com informação.

*Tiago Sarlo é CEO da Achecar, marca de inteligência decisória que revela a verdade de qualquer veículo usado antes da compra.

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